terça-feira, 10 de novembro de 2009

Dia três, parte dois

Corri para o canhão principal da cidade. Mesmo sob chuva percebi que diversos focos de incêndios se alastravam pela cidade, principalmente nas palhoças mais afastadas. Encontrei a maior parte do grupo próximo ao BFG ou dentro dele. Me apressei para saber exatamente o que estava acontecendo e o que fariam a respeito. Erick e Thandor já tomavam instruções de Guimarães quando o resto do grupo reuniu. Discutiam uma expedição até uma refinaria de pólvora próximo a uma mina de sais do pó negro. Fiquei alarmado ao saber que o último tiro do canhão monstruoso havia ocorrido no dia anterior. E eram necessários no mínimo dez barris do pó para operá-lo. Pelo que entendi esse Juggernault já patrulhava os arredores de Drassen e que a primeira expedição de trolls que encontrei ao chegar à ilha provavelmente viera dele. De alguma forma eles sabiam que o BFG só tinha mais um disparo e navegaram em assalto à ilha ao surgir a oportunidade. Atracariam em menos de seis horas e se não fossem impedidos Drassen cairia.



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A balbúrdia era generalizada em Drassen. Os homens saíram de dentro da construção que abrigava o canhão de medidas gigantescas combinando os pormenores da missão. Repentinamente três explosões ocorreram próximas ao BFG. Duas na construção que serve de suporte ao canhão. Uma atingiu o general Guimarães, que desmaiou em meio à dor e sangue. Socorremos o homem que demorou alguns minutos para acordar. Felizmente ele só perdeu um braço.



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A carroça corria pela ruas de pedras quadriculadas enquanto lembrei as últimas palavras do general da Aliança. Erick, que era capitão, agora estava no comando da cidade. Em época de guerra, Drassen seguia um regime ditatorial tendo o militar de posto mais alto o comando. Era esse tipo de poder e influência que eu precisava.


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O navio de Nill e Jack zarpou em meio à investida dos trolls. Navegando pudemos observar a monstruosidade que era o Juggernaut em alto-mar. Sua estrutura aterrorizadora assemelhava a uma fortaleza móvel. Inúmeros canhões projetavam das laterias do navio, várias placas de metal protegiam as partes mais importantes da embarcação e sua imensidão abrigava espaço para centenas, talvez milhares de inimigos. Uma das jangadas dos trolls começou a nos perseguir. O vento estava à boreste inutilizando as velas na fuga. Preparamos para o combate iminente. Direcionei o pequeno canhão fazendo o máximo de esforço para que a chuva não molhasse a pólvora. Aloquei a munição no cilindro de ferro forjado e disparei. O balaço atingiu a vante da jangada, mas não inibiu o avanço dela. Disparei as últimas duas balas procurando causar o maior estrago possível mas não foi suficiente. Os homens, em uma tentativa desesperada, lançaram explosivos em direção à embarcação que colidiria com a nossa em pouco tempo. Finalmente, um dos explosivos atingiu o casco onde um dos projéteis acertara rompendo a madeira formidavelmente, impossibilitando que aproximassem demais. O timoneiro desviou o barco à sotavento e conseguimos fugir.


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Avistamos a ilha após algumas horas de navegação. Jack, Nill, Rafael e eu ficamos no barco para guarnercê-lo. Habermman, Erick, Thandör, Azevedo e Valdez foram a ilha em busca da pólvora.
Vários horas se passaram. Raramente ouvíamos alguns disparos. Os conjurados foram para dentro do navio enquanto Nill me contava parte de sua história. Conversamos basicamente sobre os mares que velejamos, onde ele estudou navegação, quando eu aprendi a disparar canhões. Assim como eu previ a maioria das afirmações eram de menor importância, éramos evasivos as questões mais importantes e ninguém presionava respostas evitando que o mesmo acontecesse consigo.


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Sentei na ponta da proa e olhava o mar agitado. Aqui não chovia. Lembrei de minha família e minha promessa. Tudo que eu mais queria era poder abraçar minha família. Estive tão próximo de conseguir todo dinheiro que precisava. Tão próximo. Vertigo levou consigo sete anos de saques. Sete anos ao lado do Capitão Rogers, o Vela Negra. Sua bandeira assombrou vários mares. Quando a flâmula negra com uma caveira, uma pistola, um sabre e uma ampulheta era hasteada a maioria das embarcações desistia da fuga e do combate. Saqueávamos sem derramamento de sangue. As que apresentavam resistência não tinham um destino tão pacífico.
Diferentemente da maioria dos piratas nosso vínculo de lealdade ao capitão não vinha somente do sucesso nos saques, habilidade de navegação, estratégia ou combate. Mas da confiança. Um pirata do Coléra sempre seria uma pirata do Coléra. Um pirata do Vertigo, idem.


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Os disparos começaram a ficar mais frequentes na ilha. Não confiava da maioria dos homens que me acompanhavam na campanha mas gostava deles. Alguns eram homens muito bons, outros donos de seu destino e os demais estavam intimamente ligado à alguma busca. O interesse de alguns eram evidentes, de outros nem tanto. Estava ligeiramente apreensivo em relação aos que desceram na ilha. Resolvi parar de me preocupar e entrei na cabine para descansar. Os rostos de meus irmãos vieram à mente. Eu prometi a eles que voltaria a Bolarus. E eu não iria morrer nesses mares.


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O anão, os dois elfos e um homem vieram à bordo. Traziam vários barris de pólvora mas um homem estava faltando. Habberman estava morto.

domingo, 8 de novembro de 2009

Dia três, parte um

O cheiro de madressilva adentrou meus sonhos como a água do mar permeia a areia da praia. Aquele odor trouxe recordações ruins. A embarcação que cruzara tanto os mares de Kul Tiras afundara, e levara consigo diversas outras barcaças menores. Vertigo fora amaldiçoado por uma bruxa do mar, uma sereia, uma mulher no convés.


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Heloísa era uma mulher forte e esteve a bordo do Vertigo por onze meses. A relutância inicial para admití-la era generalizada. A crença do azar que elas, mulheres à bordo, traziam estava tão enraízada que os homens preferiam ficar sem timoneiro. O Capitão era um excelente navegador, mas se limitava a dar ordens, traçar rotas e planejar. Por falta de opção, veio a bordo a mulher. Excelente combatente, timoneira, cozinheira e tecelã, porém mulher. E a partir de sua entrada tudo começou a dar muito errado. Vários homens adoeçeram, muitos ataques mal-sucedidos, diversas mortes em combate. A tripulação clamava que a culpa era da desgraçada. O Capitão cedeu aos manifestos para que o motim não se instaurasse. Heloísa, fora abandonada em uma ilha semi-deserta com dez balas, uma pistola, um sabre e água para cinco dias. A mulher tomada por um transe profético proferiu palavras que martelaram a cabeça de todos tripulantes do Vertigo por muito tempo. Ao Vertigo, foi anunciado que afundaria em combate no meio da tormenta devido as ambições do Capitão. Dois anos depois soubemos que ela fora resgatada quase morta, e casara com um militar aposentado e teve dois filhos. Somente Facacega, irmão dela, eu e o Capitão não esquemos a profecia pois além do destino da embarcação fora revelado a época da futura morte de seu irmão, o sacrifício que eu teria que fazer para conquistar o que era meu e os meios que o Capitão alcançaria seus objetivos. Após isto, renunciei ao nome de minha família e passei a ser conhecido como Scorpio, ou vulgarmente, como Escorpião.


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Facacega morreu em meio a tormenta que afundara o Vertigo, cumprindo duas das quatro profecias da bruxa. O Capitão percebendo tudo aquilo me fez prometer que levaria a mensagem que roubamos dos trolls aos militares e dar procedência à anistia que a tripulação merecia. Então era verdade que o Interceptador existia ? Minhas lembranças começaram a misturar em um turbilhão e não sabia se o responsável era o tornado de minha memória ou o álcool em minha cabeça.


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Lembrei da época um pouco anterior à aquisição do Vertigo. Ainda navegávamos no Cólera e eu começava meu treinamento de acrobata. Nessa época começávamos a alimentar o ódio aos militares da quarta fragata de Kul Tiras. Arrogantes bastardos. Em um combate que os militares atacaram durante a noite fomos capturados e saqueados. Nessa noite o Capitão pronunciou sua frase que foi lembrada por muitos anos pelos piratas: -Até nós hasteamos a bandeira negra pra anunciar nossa chegada.


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O cheiro de madressilva atiçou meu olfato novamente. Acordei sonolento e embriagado. Desci de meu leito, desproporcional para meu tamanho e caminhei até a porta. Saí no corredor da estalagem e caminhei até a casa de banho, que emanava o cheiro. Uma moçoila de pouco mais de quinze ou dezesseis anos lavava seu corpo com um sabão perfumado. Esfreguei os olhos e subi tropeçando em um degrau próximo ao saguão. Não havia ninguém acordado, provavelmente ainda estava de noite. Me servi de uma bebida forte desconhecida e um pedaço de pão muito duro. Mergulhava o pão no líquido para amolecê-lo e comia vagarosamente enquanto repassava, tudo que eu devia fazer, em meus pensamentos. Me preparava para dar a quarta mordida quando um sino começou a tocar. Olhei pela janela e ainda estava muito escuro para discernir qualquer coisa. E a chuva não tinha dado trégua. Repentinamente explosões romperam o silêncio da madrugada. No mínimo vinte, quase sequenciais. O sino se calou por alguns momentos mas outros começaram a bater. A cidade estava sobre ataque.


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Vesti minha armadura e afivelei o sabre próximo ao cinto. A mochila estava jogada embaixo da cama e abaixei para pegá-la quando inúmeras explosões atingiram a cidade novamente. Guardei todas ferramentas e saí da taverna. O sol estava nascendo no horizonte e pude observar que uma forma monstruosa navegava à um quarto de milha da ilha. Era o flagelo dos mares nessa guerra. Um Juggernault.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dia dois, parte final

Guimarães, Erthay, Erick, Thandor, Jack, Nill, Rafael, Milo. Foi decidido que era necessário buscar as informações que o barco de Calina trouxera sobre o furacão. Tossi um pouco ao me levantar e analisei meu equipamento. Estava tudo lá. Erthay passou a murmurar alguns encantamentos. Reservou a mim, poderio ao sabre Ferrão. Seu brilho nítrico tornara-se mais intenso, seu balanço era quase perfeito e testando no ar, percebi que estava mais preciso do que nunca. Saímos mais uma vez para a chuva.


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Uma carroça grande puxada por dois cavalos nos aguardava. Dentro dela, algumas mochilas, cordas, um morteiro, alguns chifres de pólvora, balas de chumbo e equipamentos que Erick disse ser necessário para combater Cortaguela: estacas, armas de prata e alho. Segundo seu relato Cortaguela era uma criatura da noite, um vampiro. Para matá-lo, era necessário trespassar uma estaca de madeira em seu coração e cortar sua cabeça. Era vulnerável à prata e ao alho. Estávamos pronto. Partimos em direção da praia que fora meu primeiro campo de batalha nessa ilha. Mas não o último.


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O trajeto foi tranquilo apesar de nossas expectativas. Muito tranquilo para meu gosto. Apesar de toda atmosfera densa que pairava no caminho nada aconteceu até avistarmos os bancos de areia próximos a água. Eu apertava os olhos para tentar enxergar melhor na chuva quando um brilho avermelhado iluminou a estrada abaixo dos cavalos. Em uma fração de tempo, observei que era um círculo repleto de runas rubras. Meus olhos passaram por meus companheiros que não perceberam o perigo ininente. Com um giro para trás, saltei para fora da carroça em movimento gritando: -Emboscada! Nill foi ligeiro o suficiente para acompanhar o movimento e saltar quando a carroça explodiu em chamas. Os cavalos feridos e desesperados conduziram o emaranhado de madeira em chamuscada e pessoas em movimento disparado. Tentamos acompanhar correndo atrás e logo vimos uma guinada e o giro que a carruagem deu no ar, destroçando no chão. Nill chegou rapidamente em socorro aos companheiros quando um assalto de carniçais surgiu da mata próxima. Havia muito barulho de chuva, gritos, ganidos e armas desembainhadas . Eram os sons que permeavam aquele local. O combate era ferrenho, mas éramos numericamente e belicamente superiores. Pensei que seria uma vitória rápida quando algo me atingiu pelo alto e puxou-me. As garras da criatura perfuraram meus ombros e o frio do seu toque era tão intenso que pensei que fossem estacas de gelo me rasgando. Senti a força esviar de meu corpo enquanto ouvia a voz de Cortaguela perguntar: -Onde você ia irmãozinho ? Debati furiosamente em vão, e senti os dentes da criatura grudar próximo a minha face. Era meu fim. Não tinha mais forças para lutar e Cortaguela acabaria com minha vida facilmente. A chance de escapar surgiu quando o vampiro foi alvejado por dardos de força púrpura e rajadas de fogo. Os homens vieram em meu auxílio. Usei toda destreza que meu corpo proporcionou e contorci para fugir das garras malditas. Ao atingir o chão corri em busca de proteção. Cortaguela não iria desistir de me matar. Não havia para onde correr. Nill, Jack e Rafael disparavam seus feitiços e balas para todos os lados. Erick e Thandor combatiam o troll que eu matei na praia quando cheguei em Drassen. Os dois estavam cobertos por uma crosta de gelo, e várias farpas gélidas eram percebidas onde as armaduras do homem e do anão não protegiam. Não havia opção, saquei o sabre e passei a duelar com Cortaguela. Livrando dos inúmeros carniçais, os magos passaram a castigar meu inimigo com seus feitiços elaborados. Os demais, logo vieram em meu auxílio. A armadura que consegui nos espólios do navio mercante Sereia-do-Mar continha os golpes que eu não conseguia desviar. Ferrão trabalhava arduamente, perfurando constantemente Cortaguela. Com mais rajadas ardentes do Rafael e Jack, tiros oriundos do anão e do bucaneiro, e alguns golpes da espada prateada de Erick o inimigo foi vencido. Seu corpo rapidamente era desfeito em uma neblina. Estava vencido, mas não aniquilado. Era nossa chance de completar o objetivo.


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O barco de Calina estava ancorado próximo a praia. As areias estavam tomadas por aqueles mortos-vivos pútridos e perversos. Pedi para os demais companheiros esperarem enquanto avançava para visualizar melhor o local. Nill guardava minha retarguada enquanto eu escalava uma formação rochosa. Alguns carniçais andavam a esmo, outros aparentemente desempenhavam suas a mesmas funções que faziam quando eram vivos. Nill subiu no conjunto de rocha e armou seu rifle. Calculei o trajeto, que utilizaria escombros dos navios espalhados na praia, algumas caixas de madeira que trouxera inicialmente os mantimentos à ilha e outra formação rochosa. Facilmente aproximei das caixas desapercebido. Decorei a movimentação do carniçal mais próximo, que a repetiu três vezes como se tivesse procurando alguma coisa e utilizei seu ponto cego no campo de visão para me esgueirar próximo a formação rochosa. No ponto em que estava, percebi que ela era muito íngreme e seu topo formava uma protuberância que me escondia parcialmente do inimigo que guardava aquela posição. E certamente foi necessário esconder-me do observador, que aparentemente não percebera minha aproximação. De onde eu estava, enxergava Nill que ainda guardava minhas costas. Um frio percorreu a espinha quando percebi que um dos monstros patrulhava próximo onde o bucaneiro estava.


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Quis avisá-lo mas estaria em apuros se o fizesse. Discretamente tentei avisá-lo do perigo iminente mas não deu certo. Um barulho alto como um trovão cortou o ar. O rifle disparara.


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Vários monstros correram para a selva. Iriam emboscar Nill ou os demais companheiros e não havia como avisá-los. Eles sabiam dos riscos e eu esperava que eles resistissem. Afinal, facilitaria m minha fuga daquele inferno. Prossegui com o plano original e avancei até uma embarcação menor dos trolls. Escalei sua estrutura de madeira de cedro rapidamente e me deparei com a embarcação semi-submersa. O mastro era muito liso, o que dificultou a escalada até a torre de observação. Utilizei das velas e suas cordas para alcançá-la. Esquilibrei no suporte horizontal da segunda vela e cautelosamente caminhei até sua ponta. Na ponta eu saltaria para a vela do barco onde estavam os instrumentos de medição que eu procurava. Era o barco de Calina. Saltei com graça e aterrizei preciso. Agora faltava pouco. Desci para o convés e procurei a entrada para o interior do navio. Haviam dois carniçais na praia vigiando essa embarcação e não queria atrair sua atenção. Furtivamente penetrei no interior do barco.


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Minha memória me guiava naquele compartimento. Fui diretamente no recinto que me interessava. Estava trancado. Desafroxei meu cinto de ferramentas e procurei por meu par de gázuas preferidos. A maior delas não falhou com meu instinto e desarmei o mecanismo rapidamente. Rápido e limpo. Entrei na sala de madeira e deparei com todos objetos e instrumentos de medição espalhados por todos os lados. Ao fundo, um corpo inerte extremamente ferido. Era Cortaguela. Aproximei do desgraçado com ódio transbordando meus pensamentos. Quando estava bem próximo suas pálpebras moveram revelando um olhar impassível. Lentamente trespassei uma lança de madeira em seu peito, caçando seu coração. Espamos percorreram seu corpo enquanto escalava suas vestes e posionava meus pés em seus ombros. Com uma faca afiada, comecei a degolá-lo sem misericórdia. Brutalizado o corpo do maldito pirata, passei a procurar as leituras que os instrumentos haviam feito e encontrei vários papiros que possivelmente eram o Erthay queria, quando ouvi passos no corredor anterior a porta desse recinto. A única saída era uma portinhola que servia de janela. Saltei sobre a mesa buscando a cabeça do Cortaguela e alcancei a entrada de ar. Me espremi para passar mas o totem de minha vitória sobre o vampiro atrapalhou a investida. Já do outro lado, utilizando as frestas entre as tábuas de madeira do casco para me segurar presenti que o barulho que a cabeça fez ao atravessar a escotilha não passou desapercebido por quem entrou na sala. Repentinamente o casco onde me apoiava explodiu em chamas. O impacto me lançou ao mar revoltoso. Um fato trágico porém cômico era quem nem todos piratas sabiam nadar bem e eu era um deles. Com muito esforço e sorte consegui chegar na praia. Avistei meu grupo engajados em combate à quatrocentas ou quinhetas braças. Corri nessa direção, gritando para retroceder. Uma de minhas qualidades era discernir a hora propícia de bater em retirada e a nossa hora já havia passado há muito tempo. A pessoa que explodira o casco do barco era Calina, que agora me perseguia em vôo ofensivo. Apesar da chuva intensa meus companheiros me avistaram e vieram em socorro, disparando diversas balas e magias ofensivas em direção a bruxa. Os conjuradores logo avisaram que estavam quase sem poder ofensivo, e Nill já se encontrava sem munição quando este foi atingido por uma maldição que fez seus olhos sangrarem. Ele estava cego. Erick auxiliava Nill, enquanto os demais eliminavam os carniçais remanescentes. Com muita dificuldade conseguimos fugir daquele embate mortal.


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Alcançando o perímetro da cidade fomos auxiliados por soldados que levaram o grupo ferido até Guimarães. Erick reportou o ocorrido rapidamente ao general da Aliança que a praia estava tomada pelos mortos-vivos. Quanto a missão, resumi minhas palavras ao ato de lançar a cabeça de Cortaguela na mesa juntamente com os papiros que o maquinário do barco de Calina produziu.
Saí enfurecido da sala rogando maldições contra minha má-sorte. Pela terceira vez naquele dia, praguejei ofensas contra a ilha maldita.


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Alguns sinos tocavam enquanto observava a chuva pela fresta da janela semi-aberta da taverna. Pude observar uma agitação das pessoas quando o BFG disparou em direção à praia. Larguei o caneco de rum que eu começara a bebericar e saí na chuva. O estronho de mil trovões atingiu meu ouvido e senti o chão trepidar. O impacto daquele disparado fez a ilha inteira tremer. Seu poder de destruição era algo inimaginável, infinito. Cuspi no chão molhado, com um sorriso vingativo no rosto. Os desgraçados receberam o que mereciam. Voltei para a taverna. Sequei um pouco o corpo e despi meus artefatos bélicos. Consegui sobreviver em meio aquela tormenta e meus esforços provavelmente seriam percebidos como imprescindíveis para o sucesso da missão na praia por Guimarães. Se assim o fosse, meu objetivo seria atingido.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Dia dois, parte três

-Eles estão entre nós! alguém gritou. -Vão tomar a cidade, disse um dos guardas . Era necessário que alguém descobrisse o porquê daquilo. A melhor pista era buscar o velho que fora levado à universidade. Se ele não era a causa daquilo, deveria saber algo a respeito. Os combatentes reuniram-se mais uma vez para investigar o que estava acontecendo. Imagino que todos tinham algum interesse na situação. O meu era cair nas graças dos militares. Nill, Jack, Erick, um anão chamado Thandor e eu fomos à universidade interrogar o velho lazarento. Lá deparamos com o homem calvo. Seu nome era Rafael, e ele também estava interessado em descobrir o que estava acontecendo unindo-se a nós. Reparei que ele não era muito velho, apesar de aparentar na primeira impressão. Descobrimos que o velho havia morrido quando chegara a universidade. Nossa melhor pista escapava entre os dedos sem podermos fazer nada. O anão, mal humorado, reclamou dessa viagem incoerente para visitar um morto. Pedimos para ver o corpo e confirmar se o velho não virara um monstro também. Fomos encaminhados ao necrotério, por um dos professores. Abrimos a porta da câmara fria e deparamos com uma cena não esperada. O velho estava no centro da sala proferindo algumas palavras malditas e vários corpos estavam reanimados, alguns em pé e outros levantando. Por mil serpentes marinhas! Eram carniçais!


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Erick empunhou seu escudo e bloqueou a passagem entre as salas. -Em guarda, homens! o religioso gritou. Nesse momento ouvimos o choque de golpes na armadura e no escudo do homem. Pelo teto vimos alguns carniçais adentrarem na sala, atravessando a parte superior da porta a qual Erick não alcançava. Eram dois. Um saltou em Rafael e outro partiu para cima do
bucaneiro. As criaturas eram ávidas por sangue e morte. Corri em socorro do conjurador Rafael, que lançou um rajada de dardos de energia e perfurou gravemente o corpo do morto-vivo. Um homem comum pereceria mediante a arte arcana, mas não aquele monstro. Desferi um golpe com o Ferrão entre a sexta e a sétima costela, perfurando-o. Nossos esforços pareciam ter reduzido sua velocidade, entretanto ele rasgou a carne nua de Rafael como uma faca corta um pão. As ferimentos logo tingiram o manto do homem que recuou alarmado e disparou outra rajada de mísseis. Dessa vez o ataque foi certeiro; o carniçal cambaleou e caiu para a direita, em cima de uma mesa com alguns instrumentos de corte, espalhando os artefatos médicos. Olhei para a sala e analisei o combate. Erick demonstrando ser um bastião de aço e vontade continha dois ou três monstros do outro lado da sala. Jack lançava rajadas de fogo em um terceiro monstro que penetrara na sala pelo teto. Seu poder de fogo era impressionante, e logo reduziu seu inimigo à cinzas. Nill, esquivava-se dos ataques consecutivos do monstro, e com uma rapidez impressionante atirava com seu rifle e o recarregava rapidamente. O anão que fora embora, agora voltava em socorro, atirando com um pistola enquanto aproximava. O bucaneiro usou o rifle para defender-se de um ataque que seria fatal. Com o impacto, rolou acrobaticamente para trás, parando com uma perna ajoelhada e a outra apoiando o rifle, que disparou certeiramente no meio da cabeça do monstro. Estávamos vencendo! Erick, que passara alguns minutos contendo a entrada gritou por socorro. O clérigo estava sendo sobrepujado pelo inimigo. O anão prontamente tomou seu lugar e passou a desferir golpes com sua lança. Jack aproximou do anão e conjurou um encantamento. O anão cresceu em altura e largura tapando toda passagem. Erick conjurou alguns encantamentos para auxiliá-lo em combate, já que era o único que atacava diretamente o outro lado da sala. Do nosso lado os homens amarravam panos para fechar os ferimentos. A maioria demonstrava alguma avaria, mas Erick superava todos. Enfrentar vários inimigos tinha seu preço. O anão berrava gritos de guerra em sua língua enquanto desferia golpes. Os conjurados lançaram suas magias de proteção em Thandor. Corri entre suas pernas arqueadas e me deparei com a sala repleta de teias. Mal enxergava meu alvo, e provavelmente ficaria preso se tocasse aquela seda branco-leite mas transpor obstáculos rapidamente era o motivo pelo qual meu Capitão me convocara para ingressar no Vertigo. Aquilo não era nada comparada ao treinamento exaustivo ao qual eu me submetia. Seria fácil: esquerda, direita, rolamento, salto.
Desviei do primeiro fecho de teia pela esquerda. Quando meu pé atingiu o solo novamente, impulsionei para a direita e o do movimento seguiu um rolavamento para desviar de fios mais altos. Terminei a terceira volta e sabia q era o momento de saltar. Pude ver a expressão vazia do velho enquanto me projetava no ar e preparava o golpe. Desferi a ferroada em um ponto vital. Ele deveria cair, mas isso não aconteceu. Que diabo era aquele velho ? Ouvi o anão gritar alguma coisa: - ... frente! Intuitivamente abaixei a cabeça e a lança flamejante atravessou as entranhas do velho. Observei aterrorizado que ele não se abalara. Fique cego tu! prajeguei uma maldição comum entre os piratas me preparando para o pior quando ouvi tiros de pólvora. Nill entrara deslizando entre as pernas do anão, disparando duas balas certeiras no velho, que não demonstrava dor, mas o ódio era evidente em sua expressão. Desferiu golpes terríveis no bucaneiro que gemeu em dor. Ataquei mais uma vez mas as teias atrapalharam a trajetória do meu sabre, resvalando inofensivo na pele do inimigo. Ouvimos uma voz gritar: -Posso lançar uma laberada de chamas na sala ? Em uníssono, eu e o bucaneiro gritamos "Sim!" enquanto o anão gritava "Não, vai me atingir!". Saltei por trás de uma mesa tombada quando vi o fogo concentrado se dirigir para o meio da sala. O conjurador optara por lançá-la, e a sala explodiu em chamas. Quando o fogo cessou, observei que Nill saltou para um canto que não foi atingido pelas chamas e o velho desgraçado gritava ardendo no fogo. Thandor desferiu o golpe de misericórdia, derrubando-o.


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Muita discussão sobre o ocorrido acompanhou nosso trajeto de volta à taverna próxima ao BFG. Estávamos em uma situação sem saída. Não tínhamos ao que recorrer ou procurar. Estávamos mais perdidos que kobold em covil de dragão. Guimarães nos esperava do lado de fora do canhão colossal. A chuva não havia parado até aquele momento. Amaldiçoei aquela ilha desgraçada. Ele nos convidou a entrar no BFG. Pela sua expressão, coisa boa não era. Olhei os homens que haviam participado do combate e eles estavam feridos e abalados. Deveríamos descansar mas aquele ilha não daria trégua. Erick reportou o que aconteceu na universidade e Guimarães anunciou que outra coisa deveria ser feita. Os instrumentos no barco de Calina deveriam ser trazidos à universidade. Era imprescindível saber por onde a tormenta que se aproximava iria passar.


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Comentaram que Erthay estava envolvido naquela decisão. Rafael me informou que ele era o reitor da universidade. Guimarães deu licença para adquirirmos o que fosse necessário para trazer as informações de volta. O grupo dispersou temporariamente para obter mantimentos.
Erick que desconfiava que Cortaguela não era um simples carniçal, saiu em buscar de meios de combatê-lo. Nill e Jack foram atrás de suprimentos. Aguardei na taverna bebericando um rum não muito bom, porém forte. O taverneiro enxugava uma caneca e um cantor entoava uma canção triste. Eu estava dividido entre continuar ou não.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Dia dois, parte dois

Observei os homens recolhendo a carga que estava espalhada na praia. O homem que se dirigiu a todos começou a coordenar essa tarefa. Agora era a hora da batalha mais esperada pelos piratas: os espólios. Aproximei daquela jangada cautelosamente e parei para observar sua estrutura. O Capitão havia comentado certa vez que os trolls faziam barcos leves, dos mais velozes que ele já vira. Percebi que esse não era muito grande, teria três compartimentos internos no máximo, quando joguei a corda e subi na popa.


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Haviam algumas lanças espalhadas no convés e pequenos artefatos que deveria fazer algum sentido para eles. Uma ave piou sinistramente perto dali em sinal de mau agouro. Toquei o cabo frio do sabre involuntariamente, o que me transmitiu segurança. Furtivamente desci as escadas, passo-a-passo, em prontidão. O compartimento possuia um odor exótico; não sabia descrever o que era. Vários bancos toscos e uma espécie de mesa, com uma infinidade de objetos espalhados sobre ela, estavam no centro do compartimento. Vi uma pequena serpente de cores vivas escondendo em uma pilha de ossos. Sorrateiramente, empurrei a porta no final do compartimento e cheguei a sala de remos. Nada de muito especial, apenas mais um corredor com uma porta à esquerda e outra a frente. Abri a que estava mais próxima e fui tomado por um medo imensurável. Senti todo sangue esvair de meu corpo, minha pernas fraquejaram. Uma mulher, nua e coberta de runas malditas feitas de sangue estava pendurada pelos braços no centro daquele lugar. Um círculo rúnico estava entalhado no chão de madeira, preenchido pela sangue que deduzi ser da mulher. Ela era pálida, com cabelos dourados. Talvez tenha sido bonita. Talvez.


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Resolvi sair daquele compartimento. Voltei para a sala dos remos e abri a porta no centro do corredor. Haviam dois prisioneiros presos em uma sala minúscula. Um homem raquítico sem olhos e um troll cadavérico. O que diabos passa na cabeça desses malditos trolls, me indaguei. Libertei o homem, que vestia pouco mais que um trapo muito sujo e perguntei-lhe o nome. Senti que os portões dos infernos haviam sido abertos e que todas palavras profanas e imundas acumuladas por milênios saiam da boca daquele homem. Assustado atravessei a sala e entrei em uma espécie de quarto. Velho lazarento! Observei ao meu redor e vi um brilho dourado que atiçou meus sentidos. Centenas de moedas de ouro esapalhadas no chão, cunhadas em brasão de outros reinos em sua maioria. Vários fragmentos de ossos, algumas lanças ornamentais e algumas cabeças macabramente conservadas. Pelo tamanho julguei ser cabeças do meu povo. Quando acostumei com aqueles artefatos macabros, percebi que eram mais arrendondadas que cabeças de halflings. Eram cabeças de homens. Nunca havia visto nada parecido. Acumulei algumas centenas de moedas de ouro e saí daquele aposento. O velho continuava a gritar e proferir aquelas palavras malignas. Percorri ligeiramente a distância até o compartimento que estava a mulher pendurada. Estava a procura de algum documento, algum indício daquela excurssão de trolls. Não encontrei nada. Olhei uma última vez para o corpo inerte e percebi um brilho na mão dele. Aproximei da mulher morta e vi que ela tinha um pequeno anel na mão direita. Era grosseiro, feito de latão. Ao mesmo tempo era singelo e tão bem lustrado que consegui enxergar meu rosto em seu reflexo. Deveria valer algumas moedas se bem negociado. Cortei o dedo da mulher e guardei o anel no bolso. Primeiramente deveria verificar se estava amaldiçoado.


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Voltei ao convés e me deparei com Cortaguela. Joguei uma pequena bolsa com parte do espólio que recolhi para ele e avisei para tomar cuidado. Chamei o homem que liderava a guarda e ordenava o recolhimento dos mantimentos e avisei-o sobre a situação no interior do navio. Alertei-o que a barcaça estava fazendo água e sugeri que amarrase uma corda na cintura caso fosse entrar. Ele ignorou meus avisos mas acatou minha sugestão e entrou. Cortaguela disse alguma coisa para ele, mas não ouvi o que era. Esperei na praia, deitado na areia sentindo os pingos daquela chuva rala no rosto. Cortaguela desceu do barco e em seguida desceu o homem, muito molhado. Trazia o velho junto, que não parava de falar naquele idioma maldito. O homem se apresentou, seu nome era Erick. O sobrenome não fiz questão de memorizar. Disse que iria à cidade levar os mantimentos. Todos a guarda, os civis iriam acompanhá-lo. O bucaneiro e seu amigo misterioso também seguiram nessa direção. Fui em direção ao barco da senhorita Calina avisar que eu devia ir à cidade, agradecer e dizer adeus para ela. Cortaguela estava fumando seu cachimbo, protegido por uma capa. A senhorita pediu para que eu fosse à universidade de Drassen e avisasse que ela estava na praia e que precisava de ajuda para levar o equipamento.
Concordei em fazer esse favor, pagando a minha dívida. A chuva engrossava enquanto corria para alcançar a caravana.


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Após alguns minutos de caminhada íngreme foi possível avistar uma estrutura gigantesca. Poderia ser uma torre de um castelo imenso, se ela fnão fosse tão grande. Mas o que mais chamava atenção não era seu tamanho mas sim o imenso cilindro de aço forjado que projetava de seu interior. Fiquei pasmo por alguns instantes até uma pessoa esbarrar em mim. Perguntei incrédulo se aquilo era um canhão. Em resposta ouvi do homem: Camarada, aquilo é O canhão. Ou BFG como gostamos de chamá-lo.


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A visão de tamanho poderio militar me assombrou durante o trajeto até o quartel de Drassen. Já ouvira falar do BFG, mas não imaginava que fosse colossal. Aquilo era capaz de destruir qualquer coisa que conhecia. Mal reparei nos habitantes daquela ilha, a chuva impedia uma visão mais ampla e me concetrava em não escorregar naquela estrada de pedra lapidada. Erick informou, enquanto estávamos na praia, que se dirigiria ao quartel, e como as ordens do Capitão era que entregasse o documento aos militares o mais rápido possível, o segui. Acompanhei todos que participaram da batalha na praia entram no quartel. Sentamos ao redor de uma mesa e aguardamos. Fomos informados que Guimarães nos receberia em breve. Alguns homens trocaram alguns olhares e outros conversavam despreocupadamente quando ele entrou na sala. Não era muito velho, tinha uma expressão facial agradável mas seus olhos revelavam que já tinha vivido mais que muitos homens mais velhos. Todos foram apresentados. Da esquerda para a direita, eram: Guimarães, capitão da guarda; Erick, devoto de algum deus; Nill, o bucaneiro do embate com o líder dos trolls; Jack, um mestre das artes arcanas; Eu; Azevedo e outro bucaneiro que acompanhavam Erick. Todos relataram o que havia acontecido, suas pretensões, entre outras coisas. Nada muito importante para mim naquele momento. Guimarães expos que a cidade precisava de muita pólvora, urgentemente. Entreguei-lhe então meu fardo, a carta que havia trazido desgraça para a tripulação do Vertigo e outras embarcações sob o comando do Capitão. Contei-lhe sobre a tempestade que assolava os mares e repassei a mensagem de Calina. Ele pediu que procurasse alguém responsável na universidade, e para lá me dirigi. Dentro do quartel, era confortável e quente. Quando lembrei da chuva, desanimei com a perspectiva de me molhar novamente.


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Jack me acompanhou até a universidade. Pelo que havia entendido, havia alguma coisa dentro dele que precisava ser removida. Um silêncio constrangedor nos acompanhou até chegarmos ao nosso destino. Chovia muito. Nos despedimos e procurei alguém para repassar a mensagem de Calina, e após andar bastante e perguntar muito, encontrei um responsável. Era um homem novo, calvo e usava uma armação de ferro com lentes de vidro. Carregava vários tomos, alguns bem antigos pela cor amarelada de suas páginas. O informei de minha missão, e disse que o acompanharia até a praia e levaria até a senhorita Calina.


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Nill estava voltando a praia também, e nos acompanhou na descida. Ele disse que precisava ver algo no navio dele. Aparentemente, ele era o navegador daquela embarcação. O homem calvo nos acompanhava, vestindo uma capa de chuva. Após uma curva na encosta nos deparamos com um homem ensanguentado. Não tinha nenhum sinal de ferimento visível, mas estava banhado de sangue. Era Cortaguela.


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-Estava esperando você voltar irmãozinho - disse Cortaguela. Que diabos estava acontecendo ? Olhei para meus companheiros e eles estavam mais perplexos que eu. -Você vai se juntar a nós, irmãozinho! - exclamou quando desferiu um golpe em minha direção. Suas garras terríveis cortaram os trapos de pano que cobriam minha armadura. O barulho das garras arrastando no metal era um som agourento. Senti meu corpo sendo puxado para trás por uma força invisível, porém resisti. A senhorita Calina estava em apuros. Olhei para trás e meus acompanhantes haviam desaparecido. Arremessei meu corpo para a direita, e quando meu pé de apoio atingiu o chão, impulsionei para frente, fintando meu agressor. Corri como se o diabo estivesse em meu encalço e vi que Cortaguela saltou para a mata próxima a encosta. Pela movimentação dos galhos, ele ou aquilo que se tornara estava me seguindo. Quando cheguei a praia, vi a senhorita agachada no chão. Parecia ferida. Meus sentindos me alertaram que aquilo não estava certo. Cerrei os olhos para enxergar melhor e percebi que ela comia pedaços de um corpo morto na batalha com os trolls. Praguejei uma maldição e voltei correndo para a cidade, torcendo para que aqueles mostros não me alcançassem.


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Sentia meu estômago revirar e um suor frio percorria minha testa enquanto eu corria de volta a cidade. A chuva castigava o litoral. Logo encontrei uma dúzia de soldados e gritei confusamente o que estava acontecendo. Eles me acompanharam de volta a praia quando um dos soldados sumiu repentinamente entre nós. Alguma coisa próxima as árvores havia agarrado-o pela cabeça e o levado. Por mil macacos caolhos!! Gritei para que fizéssemos um círculo para não sermos surpreendidos. Pedi para um dos soldados voltar para a cidade em busca de reforços. Ouvimos várias palavras serem proferidas na mata. Parecia uma espécie de ritual. Olhávamos atentamente quando uma labareda de fogo explodiu entre nós. Institivamente, saltei com um giro para trás de um dos soldados evitando a maior parte do dano. Era uma carnificina. O cheiro de carne queimada invadiu minhas narinas. Aquele bolo de homens mortos e semi-mortos gemia uma sinfonia de desespero. Fugi de volta para a cidade quando encontrei Nill e o homem calvo. O homem que mandei avisar do ataque na praia logo apareceu com Guimarães e os demais. Mandei fecharem a cidade. A praia estava infestada de monstros.


***


Cansado de tudo aquilo, me dirigi à taverna. Conheci o taverneiro, que pelo porte físico foi soldado em alguma época. Tinha modos de um militar aposentado. Pedi a bebida mais forte que ele tinha e sentei na mesa. Matei um inseto que rastejava em cima dela e limpei nos farrapos por cima da armadura. Saquei uma adaga, olhei o reflexo e vi minha imagem muito abatida. Enfiei a adaga na mesa e esperei a cerveja. Os demais humanos e um anão reuniram em torno da mesa e começaram a discutir a questão da praia. Erick descreveu o ataque dos trolls, o navio com o velho louco e a mulher sacrificada. Eu não queria mais saber daquilo, só queria dormir e esquecer aquele dia maldito. Mal sabia que o dia estava longe de terminar.


***


Depois de muita discussão, levantaram a hipótese que os inimigos que estavam na praia eram carniçais. Pelo que entendi era uma espécie de criatura que retornava da morte e perseguiam algumas pessoas que eles tinham elos. Esse informação deveria ter algum erro, afinal mal conhecia o Cortaguela. Vários gritos ecoaram pra dentro da taverna. Alguém gritava por socorro do lado de fora. Quando saímos vimos Jack com uma aparência devastada e vários soldados o protegendo. Ele fora atacado por um dos monstros da praia.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia dois, parte um

Um barulho ensurdecedor cortou o ar. Eu adorava tudo naquele estrondo. O som de trovão, o cheiro de pólvora, a trajetória da bala. Aprendi a apreciar tudo isso a bordo do Vertigo. As ondas batendo no casco me trouxeram de novo à batalha iminente que aconteceria em pouco tempo.
-Sabe lutar, halfling ? Notei um tom debochado na voz de Cortaguela. Respondi que se fosse necessário, saberia me defender, mas que estava desarmado. Havia perdido a espada Mortelenta que me trouxera o apelido de Escorpião quando o navio Vertigo afundara. Cortaguela tirou um dos sabres da cintura, e lançou para mim. -Esse é o Mordida. Deixa cicatrizes horríveis. Ri mentalmente ... a lâmina era muito parecida com a do meu antigo sabre. Talvez fosse o mesmo fabricante. Mas o punho e o encantamento eram diferentes. Mordida, que nome idiota. A partir de agora se chamaria Ferrão.


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Três coisas me preocupavam.
Os trolls, obviamente era uma das preocupações.
O navio ao lado do nosso que também navegava para o litoral, e que tinha um militar a bordo. Miltares. Sempre os primeiros a chegarem, e consequentemente, os primeiros a morrerem. Cortaguela profanou uma maldição cômica em direção a embarcação próxima e atirou em sua direção. O homem é louco, pensei. Se não fosse guarda-costas da senhorita Calina, provavelmente seria pirata, com esse temperamento.
E a última das preocupações era a dúvida se eu conseguiria entregar o documento que originou toda desgraça de minha tripulação. Facacega cansou de reclamar para o Capitão que trabalhar para os militares nos levaria a ruína. Corsários. Se conseguíssemos o documento, provaríamos lealdade e seria declarada anistia à tripulação do Vertigo. O Capitão fazia um esforço para parecer sério, mas todas vezes caíamos na gargalhada. Ele tinha planos maiores. Com todo ouro e prataria acumulado, poderíamos comprar uma cidade. Mas o Capitão nunca revelou o que pretendia, só dizia que seríamos recompensados. Um dos mares, seria nosso.


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Contamos três jangadas dos malditos trolls , e pelo menos dez deles na praia. Mordi a mão para aquecer os sentidos.


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O tempo que se passou até chegarmos à praia foi agradável. O vento ameno, a chuva rala e a adrenalina mediante ao combate próximo era um coquetel tranquilizante.
A batalha havia começado quando nosso barco parou nas areias. Cortaguela disparava em direção aos seguidores de Hakkar quando saltei do barco. Com um giro que aperfeiçoei durante anos, aterrizei na praia íngreme, e disparei em direção ao primeiro inimigo que avistei.
Minha função em combate sempre fora desabilitar o líder, e por instinto direcionei minha carga em sua direção. Praguejei por ter guardado todas doses de venenos na minha cabine do antigo navio. Eles seriam de grande serventia agora que saltava para cravar o Ferrão nas costas do troll. Torci para que conseguisse desferir o segundo ataque antes que ele percebesse o primeiro. Subestimei sua agilidade. Com um safanão ele me lançou no mar, e com um impulso alçou vôo.
Perfeito, pensei. Agora ele acaba comigo. Por sorte, uma rajada de tiros maltratou o troll. Fiquei salpicado com aquele sangue intensamente vermelho. O troll furiosamente foi em direção ao seu agressor. Pude ver as gotas de chuva lentamente congelando ao redor das mãos dele. Comecei a escalar a lateral do navio para alcançá-lo.


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Tudo ficou branco repentinamente. Um jato congelante castigou a proa do navio. Vi um homem com um trabuco saltando atrás do mastro no último segundo antes de ser atingido pela rajada de gelo. O outro não teve tanta sorte, jazia no convés com uma expressão de fúria no rosto. O pistoleiro atirou na direção do troll, acertando mais um tiro e voltando a esconder atrás do mastro. O troll sacou sua arma e com um vôo razante desceu em direção ao homem. Lembrou um falcão descendo para apanhar uma presa. Menos gracioso, mais mortal. Um golpe atingou a coxa do homem e o outro quase partiu o mastro em dois. Muito sangue estava espalhado no convés. O homem recuou até o bico de proa e deu o último tiro. Era matar ou morrer. Não matou. Alcancei a parte em que os dois estavam engajados e procurei o melhor lugar para correr. O troll foi em direção ao homem, com uma gargalhada macabra. Um golpe quase arrancou as estranhas do humano. O segundo golpe saiu com muita força... partiria meu corpo em dois facilmente,porém só atingiu madeira inerte. O homem havia saltado para o mar. Dentro da água, seria facilmente subjulgado pelo troll. Era a minha chance.


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Disparei em sua direção. Agora eu não falharia.
Saltei em suas costas arqueadas, e meus pés escalaram rapidamente sua coluna. Trespassei o sabre em sua garganta, e imaginei que ele gritaria se ainda tivesse cordas vocais. O segundo golpe atingiu um pulmão e o gigante tombou na meia-nau.
Olhei para o homem congelado na proa. Não sentia nenhuma simpatia por militares, mas pelos mortos sempre demonstramos respeito. -Você foi vingado, colega. Saltei para praia. Os humanos começavam a se reunir e queimar os corpos dos demais trolls. Havia muitos mantimentos espalhado pela areia, dos mais variados.
Um homem loiro de aspecto respeitável, vestindo uma armadura de batalha, aproximou de todos que chegaram pelo mar, agradecendo a ajuda em combate, que segundo suas palavras foi valiosa e de extrema importância. Perguntei onde ficava o quartel daquela cidade. Ele me informou que estávamos em Drassen. Por mil serpentes marinhas!!! Drassen ?!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Dia um

A primeira coisa que me lembro era de um céu estrelado. Não sei quanto tempo vaguei tendo como companheiros somente o vento e as estrelas. Me amaldiçoei por nunca ter aprendido a me guiar pelas luzes celestes. Juntei forças para levantar a cabeça e minha visão ficou turva. Provavelmente havia batido a cabeça com muita força, e se eu havia me ferido não saberia dizer.
A água salgada voltou de minhas entranhas e a devolvi ao mar. Maldito furacão! Malditos trolls.


***


Quando a tempora parou de latejar, voltei a lucidez. Ao meu redor somente destruição. Poderia reconhecer aquele pedaço de mastro em qualquer lugar. Dois barris, um pedaço de corda, parte da vela secundária, o leme e vários nacos de madeira flutuavam ao meu redor. Nenhum corpo.
Peguei um pedaço de madeira que me serviu de remo e comecei a ir em uma direção. Para onde eu não sabia. O vento me abandonara, somente as estrelas e a morte no meu encalço. Se não encontrasse abrigo, pereceria como os demais e dormiria para sempre no fundo do sempreazul. Não que essa fosse a pior das mortes... mas não poderia morrer. Não agora.


***


Quando os braços não aguentavam mais, parei de remar. Deitei no pedaço da proa que agora me servia como um barco tosco e desesperei. Não era costume rogar a piedade dos deuses, mas não tinha opção. Aquela calmaria não era comum. Lembrei-me do companheiro Roger Facacega, que certa vez lhe disse que tal calmaria só significavam duas coisas. Tempestade ou furacão. O que eu não daria para me embebedar com meus companheiros mais uma vez. Teria pagado aquela última rodada à Roger. Era tarde demais.


***


A alternativa era esperar amanhecer, o sol me guiaria. Sabia razoavelmente onde estava, e deveria remar para noroeste e alcançar uma rota marítima muito usada. Assim teria um pouco de esperança de encontrar alguma embarcação. - Como se alguém fosse navegar com esse furacão aproximando, ri sarcasticamente, lamentando minha combinação de má sorte. Iria degolar aquela velha bruxa que amaldiçoou o navio Vertigo.


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Para minha surpresa, um sino tocou. Se minha imaginação não estivesse pregando uma peça, aquilo era um bom sinal. A escuridão da noite impedia que enxergasse mais adiante mas podia ouvir o barulho de água se mexendo. Temia que fosse algum espírito maligno de marinheiro, mas a perspectiva de resgate superava isso. Afinal, não era uma embarcação inimiga. Nem militares, nem piratas utilizariam sinos para avisar sua posição.
Gritei por socorro como toda força que me restava. A resposta veio em seguida, em código. Lembrei de Jack Sem-dente que uma vez havia me dito que seria inútil aprender isso. Pobre Jack, lamentei.
A bordo, notei que meus salvadores eram duas pessoas. Uma senhorita muito nova e muito bonita para uma humana. Um homem mal encarado, com dois sabres na cintura, duas pistolas no quadril, e um cigarro na boca que produzia tanta fumaça que mal conseguia enxergar seu rosto. A voz grave veio em seguida: -Quem diabos é você e o que está fazendo aqui ? A senhorita interveio: -Calma Sr. Cortaguela. Não vê que é um náugrafo ? Aqui rapaz, sente-se. O que aconteceu com você ?
Respirei fundo. Respondi que meu barco afundara devido a um início do furacão. Pela expressão em seu rosto ela achara minha resposta estranha. Mas era a verdade. Pelo menos essa parte. A voz grave interrogou novamente: -Qual era o nome do seu barco ? O primeiro nome que lembrei foi um navio pesqueiro que havia vendido alguns mantimentos para nós a duas semanas atrás, o Atum celeste. E essa foi minha resposta. Ele movimentou a cabeça como se me analisasse de cima para baixo, mas não disse nada. O silêncio demonstrava que ele aparentemente se convencera. A voz suave da senhorita me pergutou o nome, e novamente não menti. Não havia necessidade, por esses mares eu não era conhecido. Ela me disse que seu nome era Calina.
Algum tempo no convés me fez lembrar da exaustão que eu estava. Pedi a senhorita um pouco de rum e algo para acender o fumo. Alisei um pouco o bigode e percebi que estava com a barba por fazer. Com o lâmina de uma adaga pude enxergar o reflexo de minha aparência e não poderia estar pior. Vários hematomas, pequenos cortes superficiais e um corte profundo inflamando. - Tenho que cuidar desse, pensei. Com outra faca, passei a tirar o excesso de barba quando a senhorita voltou com um cantil de rum e um cobertor. Cortaguela me emprestou a pederneira para acender o cigarro.
Descansei então por alguns minutos, e quando voltei a abrir os olhos percebi que haviam passado horas. Pelo posição do sol nascente, provavelmente em torno de duas. O homem apareceu novamente e pediu que o ajudasse a remar para que conseguissemos chegar a tempo em terra firme. A tempo de que, ele não disse, e o pedido soou como uma ordem. A senhorita informou o que era: precisavam levar informações do clima para a universidade da cidade mais próxima.


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Eu devia minha vida a eles e resolvi ajudar. Era o mínimo que eu podia fazer. Começamos a remar. E como eram pesados os remos. O homem não parecia fazer muito esforço, mas para mim a dor era excruciante . Quando paramos, mal conseguia sentir meus braços. Boa hora que Calina trouxe o almoço, carne de porco afogada. Era engraçado como o destino brincava comigo. Afogado também estava Barthur Forjadente, mais conhecido entre nós como Porco-de-guerra. Aquele anão imundo era insaciável em combate. Não que o Capitão fosse amante da violência. Mas quando era inevitável, era do lado dele que todos queriam estar. E o Porco só parava quando o Capitão mandava. Balancei a cabeça para esquecer as lembranças e comi torcendo para que que o afogado ficasse em minha barriga. Em outra ocasião não teria comido, mas a fome estava insuportável. Com as forças renovadas, voltamos a remar até avistar o litoral.
Um arrepio covarde percorreu toda a espinha quando vi que haviam três barcos ancorados perto da praia. E não eram qualquer tipo de barco. Eram barcos de trolls.