segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Dia dois, parte dois

Observei os homens recolhendo a carga que estava espalhada na praia. O homem que se dirigiu a todos começou a coordenar essa tarefa. Agora era a hora da batalha mais esperada pelos piratas: os espólios. Aproximei daquela jangada cautelosamente e parei para observar sua estrutura. O Capitão havia comentado certa vez que os trolls faziam barcos leves, dos mais velozes que ele já vira. Percebi que esse não era muito grande, teria três compartimentos internos no máximo, quando joguei a corda e subi na popa.


***


Haviam algumas lanças espalhadas no convés e pequenos artefatos que deveria fazer algum sentido para eles. Uma ave piou sinistramente perto dali em sinal de mau agouro. Toquei o cabo frio do sabre involuntariamente, o que me transmitiu segurança. Furtivamente desci as escadas, passo-a-passo, em prontidão. O compartimento possuia um odor exótico; não sabia descrever o que era. Vários bancos toscos e uma espécie de mesa, com uma infinidade de objetos espalhados sobre ela, estavam no centro do compartimento. Vi uma pequena serpente de cores vivas escondendo em uma pilha de ossos. Sorrateiramente, empurrei a porta no final do compartimento e cheguei a sala de remos. Nada de muito especial, apenas mais um corredor com uma porta à esquerda e outra a frente. Abri a que estava mais próxima e fui tomado por um medo imensurável. Senti todo sangue esvair de meu corpo, minha pernas fraquejaram. Uma mulher, nua e coberta de runas malditas feitas de sangue estava pendurada pelos braços no centro daquele lugar. Um círculo rúnico estava entalhado no chão de madeira, preenchido pela sangue que deduzi ser da mulher. Ela era pálida, com cabelos dourados. Talvez tenha sido bonita. Talvez.


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Resolvi sair daquele compartimento. Voltei para a sala dos remos e abri a porta no centro do corredor. Haviam dois prisioneiros presos em uma sala minúscula. Um homem raquítico sem olhos e um troll cadavérico. O que diabos passa na cabeça desses malditos trolls, me indaguei. Libertei o homem, que vestia pouco mais que um trapo muito sujo e perguntei-lhe o nome. Senti que os portões dos infernos haviam sido abertos e que todas palavras profanas e imundas acumuladas por milênios saiam da boca daquele homem. Assustado atravessei a sala e entrei em uma espécie de quarto. Velho lazarento! Observei ao meu redor e vi um brilho dourado que atiçou meus sentidos. Centenas de moedas de ouro esapalhadas no chão, cunhadas em brasão de outros reinos em sua maioria. Vários fragmentos de ossos, algumas lanças ornamentais e algumas cabeças macabramente conservadas. Pelo tamanho julguei ser cabeças do meu povo. Quando acostumei com aqueles artefatos macabros, percebi que eram mais arrendondadas que cabeças de halflings. Eram cabeças de homens. Nunca havia visto nada parecido. Acumulei algumas centenas de moedas de ouro e saí daquele aposento. O velho continuava a gritar e proferir aquelas palavras malignas. Percorri ligeiramente a distância até o compartimento que estava a mulher pendurada. Estava a procura de algum documento, algum indício daquela excurssão de trolls. Não encontrei nada. Olhei uma última vez para o corpo inerte e percebi um brilho na mão dele. Aproximei da mulher morta e vi que ela tinha um pequeno anel na mão direita. Era grosseiro, feito de latão. Ao mesmo tempo era singelo e tão bem lustrado que consegui enxergar meu rosto em seu reflexo. Deveria valer algumas moedas se bem negociado. Cortei o dedo da mulher e guardei o anel no bolso. Primeiramente deveria verificar se estava amaldiçoado.


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Voltei ao convés e me deparei com Cortaguela. Joguei uma pequena bolsa com parte do espólio que recolhi para ele e avisei para tomar cuidado. Chamei o homem que liderava a guarda e ordenava o recolhimento dos mantimentos e avisei-o sobre a situação no interior do navio. Alertei-o que a barcaça estava fazendo água e sugeri que amarrase uma corda na cintura caso fosse entrar. Ele ignorou meus avisos mas acatou minha sugestão e entrou. Cortaguela disse alguma coisa para ele, mas não ouvi o que era. Esperei na praia, deitado na areia sentindo os pingos daquela chuva rala no rosto. Cortaguela desceu do barco e em seguida desceu o homem, muito molhado. Trazia o velho junto, que não parava de falar naquele idioma maldito. O homem se apresentou, seu nome era Erick. O sobrenome não fiz questão de memorizar. Disse que iria à cidade levar os mantimentos. Todos a guarda, os civis iriam acompanhá-lo. O bucaneiro e seu amigo misterioso também seguiram nessa direção. Fui em direção ao barco da senhorita Calina avisar que eu devia ir à cidade, agradecer e dizer adeus para ela. Cortaguela estava fumando seu cachimbo, protegido por uma capa. A senhorita pediu para que eu fosse à universidade de Drassen e avisasse que ela estava na praia e que precisava de ajuda para levar o equipamento.
Concordei em fazer esse favor, pagando a minha dívida. A chuva engrossava enquanto corria para alcançar a caravana.


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Após alguns minutos de caminhada íngreme foi possível avistar uma estrutura gigantesca. Poderia ser uma torre de um castelo imenso, se ela fnão fosse tão grande. Mas o que mais chamava atenção não era seu tamanho mas sim o imenso cilindro de aço forjado que projetava de seu interior. Fiquei pasmo por alguns instantes até uma pessoa esbarrar em mim. Perguntei incrédulo se aquilo era um canhão. Em resposta ouvi do homem: Camarada, aquilo é O canhão. Ou BFG como gostamos de chamá-lo.


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A visão de tamanho poderio militar me assombrou durante o trajeto até o quartel de Drassen. Já ouvira falar do BFG, mas não imaginava que fosse colossal. Aquilo era capaz de destruir qualquer coisa que conhecia. Mal reparei nos habitantes daquela ilha, a chuva impedia uma visão mais ampla e me concetrava em não escorregar naquela estrada de pedra lapidada. Erick informou, enquanto estávamos na praia, que se dirigiria ao quartel, e como as ordens do Capitão era que entregasse o documento aos militares o mais rápido possível, o segui. Acompanhei todos que participaram da batalha na praia entram no quartel. Sentamos ao redor de uma mesa e aguardamos. Fomos informados que Guimarães nos receberia em breve. Alguns homens trocaram alguns olhares e outros conversavam despreocupadamente quando ele entrou na sala. Não era muito velho, tinha uma expressão facial agradável mas seus olhos revelavam que já tinha vivido mais que muitos homens mais velhos. Todos foram apresentados. Da esquerda para a direita, eram: Guimarães, capitão da guarda; Erick, devoto de algum deus; Nill, o bucaneiro do embate com o líder dos trolls; Jack, um mestre das artes arcanas; Eu; Azevedo e outro bucaneiro que acompanhavam Erick. Todos relataram o que havia acontecido, suas pretensões, entre outras coisas. Nada muito importante para mim naquele momento. Guimarães expos que a cidade precisava de muita pólvora, urgentemente. Entreguei-lhe então meu fardo, a carta que havia trazido desgraça para a tripulação do Vertigo e outras embarcações sob o comando do Capitão. Contei-lhe sobre a tempestade que assolava os mares e repassei a mensagem de Calina. Ele pediu que procurasse alguém responsável na universidade, e para lá me dirigi. Dentro do quartel, era confortável e quente. Quando lembrei da chuva, desanimei com a perspectiva de me molhar novamente.


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Jack me acompanhou até a universidade. Pelo que havia entendido, havia alguma coisa dentro dele que precisava ser removida. Um silêncio constrangedor nos acompanhou até chegarmos ao nosso destino. Chovia muito. Nos despedimos e procurei alguém para repassar a mensagem de Calina, e após andar bastante e perguntar muito, encontrei um responsável. Era um homem novo, calvo e usava uma armação de ferro com lentes de vidro. Carregava vários tomos, alguns bem antigos pela cor amarelada de suas páginas. O informei de minha missão, e disse que o acompanharia até a praia e levaria até a senhorita Calina.


***


Nill estava voltando a praia também, e nos acompanhou na descida. Ele disse que precisava ver algo no navio dele. Aparentemente, ele era o navegador daquela embarcação. O homem calvo nos acompanhava, vestindo uma capa de chuva. Após uma curva na encosta nos deparamos com um homem ensanguentado. Não tinha nenhum sinal de ferimento visível, mas estava banhado de sangue. Era Cortaguela.


***


-Estava esperando você voltar irmãozinho - disse Cortaguela. Que diabos estava acontecendo ? Olhei para meus companheiros e eles estavam mais perplexos que eu. -Você vai se juntar a nós, irmãozinho! - exclamou quando desferiu um golpe em minha direção. Suas garras terríveis cortaram os trapos de pano que cobriam minha armadura. O barulho das garras arrastando no metal era um som agourento. Senti meu corpo sendo puxado para trás por uma força invisível, porém resisti. A senhorita Calina estava em apuros. Olhei para trás e meus acompanhantes haviam desaparecido. Arremessei meu corpo para a direita, e quando meu pé de apoio atingiu o chão, impulsionei para frente, fintando meu agressor. Corri como se o diabo estivesse em meu encalço e vi que Cortaguela saltou para a mata próxima a encosta. Pela movimentação dos galhos, ele ou aquilo que se tornara estava me seguindo. Quando cheguei a praia, vi a senhorita agachada no chão. Parecia ferida. Meus sentindos me alertaram que aquilo não estava certo. Cerrei os olhos para enxergar melhor e percebi que ela comia pedaços de um corpo morto na batalha com os trolls. Praguejei uma maldição e voltei correndo para a cidade, torcendo para que aqueles mostros não me alcançassem.


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Sentia meu estômago revirar e um suor frio percorria minha testa enquanto eu corria de volta a cidade. A chuva castigava o litoral. Logo encontrei uma dúzia de soldados e gritei confusamente o que estava acontecendo. Eles me acompanharam de volta a praia quando um dos soldados sumiu repentinamente entre nós. Alguma coisa próxima as árvores havia agarrado-o pela cabeça e o levado. Por mil macacos caolhos!! Gritei para que fizéssemos um círculo para não sermos surpreendidos. Pedi para um dos soldados voltar para a cidade em busca de reforços. Ouvimos várias palavras serem proferidas na mata. Parecia uma espécie de ritual. Olhávamos atentamente quando uma labareda de fogo explodiu entre nós. Institivamente, saltei com um giro para trás de um dos soldados evitando a maior parte do dano. Era uma carnificina. O cheiro de carne queimada invadiu minhas narinas. Aquele bolo de homens mortos e semi-mortos gemia uma sinfonia de desespero. Fugi de volta para a cidade quando encontrei Nill e o homem calvo. O homem que mandei avisar do ataque na praia logo apareceu com Guimarães e os demais. Mandei fecharem a cidade. A praia estava infestada de monstros.


***


Cansado de tudo aquilo, me dirigi à taverna. Conheci o taverneiro, que pelo porte físico foi soldado em alguma época. Tinha modos de um militar aposentado. Pedi a bebida mais forte que ele tinha e sentei na mesa. Matei um inseto que rastejava em cima dela e limpei nos farrapos por cima da armadura. Saquei uma adaga, olhei o reflexo e vi minha imagem muito abatida. Enfiei a adaga na mesa e esperei a cerveja. Os demais humanos e um anão reuniram em torno da mesa e começaram a discutir a questão da praia. Erick descreveu o ataque dos trolls, o navio com o velho louco e a mulher sacrificada. Eu não queria mais saber daquilo, só queria dormir e esquecer aquele dia maldito. Mal sabia que o dia estava longe de terminar.


***


Depois de muita discussão, levantaram a hipótese que os inimigos que estavam na praia eram carniçais. Pelo que entendi era uma espécie de criatura que retornava da morte e perseguiam algumas pessoas que eles tinham elos. Esse informação deveria ter algum erro, afinal mal conhecia o Cortaguela. Vários gritos ecoaram pra dentro da taverna. Alguém gritava por socorro do lado de fora. Quando saímos vimos Jack com uma aparência devastada e vários soldados o protegendo. Ele fora atacado por um dos monstros da praia.

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