quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Dia um

A primeira coisa que me lembro era de um céu estrelado. Não sei quanto tempo vaguei tendo como companheiros somente o vento e as estrelas. Me amaldiçoei por nunca ter aprendido a me guiar pelas luzes celestes. Juntei forças para levantar a cabeça e minha visão ficou turva. Provavelmente havia batido a cabeça com muita força, e se eu havia me ferido não saberia dizer.
A água salgada voltou de minhas entranhas e a devolvi ao mar. Maldito furacão! Malditos trolls.


***


Quando a tempora parou de latejar, voltei a lucidez. Ao meu redor somente destruição. Poderia reconhecer aquele pedaço de mastro em qualquer lugar. Dois barris, um pedaço de corda, parte da vela secundária, o leme e vários nacos de madeira flutuavam ao meu redor. Nenhum corpo.
Peguei um pedaço de madeira que me serviu de remo e comecei a ir em uma direção. Para onde eu não sabia. O vento me abandonara, somente as estrelas e a morte no meu encalço. Se não encontrasse abrigo, pereceria como os demais e dormiria para sempre no fundo do sempreazul. Não que essa fosse a pior das mortes... mas não poderia morrer. Não agora.


***


Quando os braços não aguentavam mais, parei de remar. Deitei no pedaço da proa que agora me servia como um barco tosco e desesperei. Não era costume rogar a piedade dos deuses, mas não tinha opção. Aquela calmaria não era comum. Lembrei-me do companheiro Roger Facacega, que certa vez lhe disse que tal calmaria só significavam duas coisas. Tempestade ou furacão. O que eu não daria para me embebedar com meus companheiros mais uma vez. Teria pagado aquela última rodada à Roger. Era tarde demais.


***


A alternativa era esperar amanhecer, o sol me guiaria. Sabia razoavelmente onde estava, e deveria remar para noroeste e alcançar uma rota marítima muito usada. Assim teria um pouco de esperança de encontrar alguma embarcação. - Como se alguém fosse navegar com esse furacão aproximando, ri sarcasticamente, lamentando minha combinação de má sorte. Iria degolar aquela velha bruxa que amaldiçoou o navio Vertigo.


***


Para minha surpresa, um sino tocou. Se minha imaginação não estivesse pregando uma peça, aquilo era um bom sinal. A escuridão da noite impedia que enxergasse mais adiante mas podia ouvir o barulho de água se mexendo. Temia que fosse algum espírito maligno de marinheiro, mas a perspectiva de resgate superava isso. Afinal, não era uma embarcação inimiga. Nem militares, nem piratas utilizariam sinos para avisar sua posição.
Gritei por socorro como toda força que me restava. A resposta veio em seguida, em código. Lembrei de Jack Sem-dente que uma vez havia me dito que seria inútil aprender isso. Pobre Jack, lamentei.
A bordo, notei que meus salvadores eram duas pessoas. Uma senhorita muito nova e muito bonita para uma humana. Um homem mal encarado, com dois sabres na cintura, duas pistolas no quadril, e um cigarro na boca que produzia tanta fumaça que mal conseguia enxergar seu rosto. A voz grave veio em seguida: -Quem diabos é você e o que está fazendo aqui ? A senhorita interveio: -Calma Sr. Cortaguela. Não vê que é um náugrafo ? Aqui rapaz, sente-se. O que aconteceu com você ?
Respirei fundo. Respondi que meu barco afundara devido a um início do furacão. Pela expressão em seu rosto ela achara minha resposta estranha. Mas era a verdade. Pelo menos essa parte. A voz grave interrogou novamente: -Qual era o nome do seu barco ? O primeiro nome que lembrei foi um navio pesqueiro que havia vendido alguns mantimentos para nós a duas semanas atrás, o Atum celeste. E essa foi minha resposta. Ele movimentou a cabeça como se me analisasse de cima para baixo, mas não disse nada. O silêncio demonstrava que ele aparentemente se convencera. A voz suave da senhorita me pergutou o nome, e novamente não menti. Não havia necessidade, por esses mares eu não era conhecido. Ela me disse que seu nome era Calina.
Algum tempo no convés me fez lembrar da exaustão que eu estava. Pedi a senhorita um pouco de rum e algo para acender o fumo. Alisei um pouco o bigode e percebi que estava com a barba por fazer. Com o lâmina de uma adaga pude enxergar o reflexo de minha aparência e não poderia estar pior. Vários hematomas, pequenos cortes superficiais e um corte profundo inflamando. - Tenho que cuidar desse, pensei. Com outra faca, passei a tirar o excesso de barba quando a senhorita voltou com um cantil de rum e um cobertor. Cortaguela me emprestou a pederneira para acender o cigarro.
Descansei então por alguns minutos, e quando voltei a abrir os olhos percebi que haviam passado horas. Pelo posição do sol nascente, provavelmente em torno de duas. O homem apareceu novamente e pediu que o ajudasse a remar para que conseguissemos chegar a tempo em terra firme. A tempo de que, ele não disse, e o pedido soou como uma ordem. A senhorita informou o que era: precisavam levar informações do clima para a universidade da cidade mais próxima.


***


Eu devia minha vida a eles e resolvi ajudar. Era o mínimo que eu podia fazer. Começamos a remar. E como eram pesados os remos. O homem não parecia fazer muito esforço, mas para mim a dor era excruciante . Quando paramos, mal conseguia sentir meus braços. Boa hora que Calina trouxe o almoço, carne de porco afogada. Era engraçado como o destino brincava comigo. Afogado também estava Barthur Forjadente, mais conhecido entre nós como Porco-de-guerra. Aquele anão imundo era insaciável em combate. Não que o Capitão fosse amante da violência. Mas quando era inevitável, era do lado dele que todos queriam estar. E o Porco só parava quando o Capitão mandava. Balancei a cabeça para esquecer as lembranças e comi torcendo para que que o afogado ficasse em minha barriga. Em outra ocasião não teria comido, mas a fome estava insuportável. Com as forças renovadas, voltamos a remar até avistar o litoral.
Um arrepio covarde percorreu toda a espinha quando vi que haviam três barcos ancorados perto da praia. E não eram qualquer tipo de barco. Eram barcos de trolls.

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