quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia dois, parte um

Um barulho ensurdecedor cortou o ar. Eu adorava tudo naquele estrondo. O som de trovão, o cheiro de pólvora, a trajetória da bala. Aprendi a apreciar tudo isso a bordo do Vertigo. As ondas batendo no casco me trouxeram de novo à batalha iminente que aconteceria em pouco tempo.
-Sabe lutar, halfling ? Notei um tom debochado na voz de Cortaguela. Respondi que se fosse necessário, saberia me defender, mas que estava desarmado. Havia perdido a espada Mortelenta que me trouxera o apelido de Escorpião quando o navio Vertigo afundara. Cortaguela tirou um dos sabres da cintura, e lançou para mim. -Esse é o Mordida. Deixa cicatrizes horríveis. Ri mentalmente ... a lâmina era muito parecida com a do meu antigo sabre. Talvez fosse o mesmo fabricante. Mas o punho e o encantamento eram diferentes. Mordida, que nome idiota. A partir de agora se chamaria Ferrão.


***


Três coisas me preocupavam.
Os trolls, obviamente era uma das preocupações.
O navio ao lado do nosso que também navegava para o litoral, e que tinha um militar a bordo. Miltares. Sempre os primeiros a chegarem, e consequentemente, os primeiros a morrerem. Cortaguela profanou uma maldição cômica em direção a embarcação próxima e atirou em sua direção. O homem é louco, pensei. Se não fosse guarda-costas da senhorita Calina, provavelmente seria pirata, com esse temperamento.
E a última das preocupações era a dúvida se eu conseguiria entregar o documento que originou toda desgraça de minha tripulação. Facacega cansou de reclamar para o Capitão que trabalhar para os militares nos levaria a ruína. Corsários. Se conseguíssemos o documento, provaríamos lealdade e seria declarada anistia à tripulação do Vertigo. O Capitão fazia um esforço para parecer sério, mas todas vezes caíamos na gargalhada. Ele tinha planos maiores. Com todo ouro e prataria acumulado, poderíamos comprar uma cidade. Mas o Capitão nunca revelou o que pretendia, só dizia que seríamos recompensados. Um dos mares, seria nosso.


***


Contamos três jangadas dos malditos trolls , e pelo menos dez deles na praia. Mordi a mão para aquecer os sentidos.


***


O tempo que se passou até chegarmos à praia foi agradável. O vento ameno, a chuva rala e a adrenalina mediante ao combate próximo era um coquetel tranquilizante.
A batalha havia começado quando nosso barco parou nas areias. Cortaguela disparava em direção aos seguidores de Hakkar quando saltei do barco. Com um giro que aperfeiçoei durante anos, aterrizei na praia íngreme, e disparei em direção ao primeiro inimigo que avistei.
Minha função em combate sempre fora desabilitar o líder, e por instinto direcionei minha carga em sua direção. Praguejei por ter guardado todas doses de venenos na minha cabine do antigo navio. Eles seriam de grande serventia agora que saltava para cravar o Ferrão nas costas do troll. Torci para que conseguisse desferir o segundo ataque antes que ele percebesse o primeiro. Subestimei sua agilidade. Com um safanão ele me lançou no mar, e com um impulso alçou vôo.
Perfeito, pensei. Agora ele acaba comigo. Por sorte, uma rajada de tiros maltratou o troll. Fiquei salpicado com aquele sangue intensamente vermelho. O troll furiosamente foi em direção ao seu agressor. Pude ver as gotas de chuva lentamente congelando ao redor das mãos dele. Comecei a escalar a lateral do navio para alcançá-lo.


***


Tudo ficou branco repentinamente. Um jato congelante castigou a proa do navio. Vi um homem com um trabuco saltando atrás do mastro no último segundo antes de ser atingido pela rajada de gelo. O outro não teve tanta sorte, jazia no convés com uma expressão de fúria no rosto. O pistoleiro atirou na direção do troll, acertando mais um tiro e voltando a esconder atrás do mastro. O troll sacou sua arma e com um vôo razante desceu em direção ao homem. Lembrou um falcão descendo para apanhar uma presa. Menos gracioso, mais mortal. Um golpe atingou a coxa do homem e o outro quase partiu o mastro em dois. Muito sangue estava espalhado no convés. O homem recuou até o bico de proa e deu o último tiro. Era matar ou morrer. Não matou. Alcancei a parte em que os dois estavam engajados e procurei o melhor lugar para correr. O troll foi em direção ao homem, com uma gargalhada macabra. Um golpe quase arrancou as estranhas do humano. O segundo golpe saiu com muita força... partiria meu corpo em dois facilmente,porém só atingiu madeira inerte. O homem havia saltado para o mar. Dentro da água, seria facilmente subjulgado pelo troll. Era a minha chance.


***


Disparei em sua direção. Agora eu não falharia.
Saltei em suas costas arqueadas, e meus pés escalaram rapidamente sua coluna. Trespassei o sabre em sua garganta, e imaginei que ele gritaria se ainda tivesse cordas vocais. O segundo golpe atingiu um pulmão e o gigante tombou na meia-nau.
Olhei para o homem congelado na proa. Não sentia nenhuma simpatia por militares, mas pelos mortos sempre demonstramos respeito. -Você foi vingado, colega. Saltei para praia. Os humanos começavam a se reunir e queimar os corpos dos demais trolls. Havia muitos mantimentos espalhado pela areia, dos mais variados.
Um homem loiro de aspecto respeitável, vestindo uma armadura de batalha, aproximou de todos que chegaram pelo mar, agradecendo a ajuda em combate, que segundo suas palavras foi valiosa e de extrema importância. Perguntei onde ficava o quartel daquela cidade. Ele me informou que estávamos em Drassen. Por mil serpentes marinhas!!! Drassen ?!

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