segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dia dois, parte final

Guimarães, Erthay, Erick, Thandor, Jack, Nill, Rafael, Milo. Foi decidido que era necessário buscar as informações que o barco de Calina trouxera sobre o furacão. Tossi um pouco ao me levantar e analisei meu equipamento. Estava tudo lá. Erthay passou a murmurar alguns encantamentos. Reservou a mim, poderio ao sabre Ferrão. Seu brilho nítrico tornara-se mais intenso, seu balanço era quase perfeito e testando no ar, percebi que estava mais preciso do que nunca. Saímos mais uma vez para a chuva.


***


Uma carroça grande puxada por dois cavalos nos aguardava. Dentro dela, algumas mochilas, cordas, um morteiro, alguns chifres de pólvora, balas de chumbo e equipamentos que Erick disse ser necessário para combater Cortaguela: estacas, armas de prata e alho. Segundo seu relato Cortaguela era uma criatura da noite, um vampiro. Para matá-lo, era necessário trespassar uma estaca de madeira em seu coração e cortar sua cabeça. Era vulnerável à prata e ao alho. Estávamos pronto. Partimos em direção da praia que fora meu primeiro campo de batalha nessa ilha. Mas não o último.


***


O trajeto foi tranquilo apesar de nossas expectativas. Muito tranquilo para meu gosto. Apesar de toda atmosfera densa que pairava no caminho nada aconteceu até avistarmos os bancos de areia próximos a água. Eu apertava os olhos para tentar enxergar melhor na chuva quando um brilho avermelhado iluminou a estrada abaixo dos cavalos. Em uma fração de tempo, observei que era um círculo repleto de runas rubras. Meus olhos passaram por meus companheiros que não perceberam o perigo ininente. Com um giro para trás, saltei para fora da carroça em movimento gritando: -Emboscada! Nill foi ligeiro o suficiente para acompanhar o movimento e saltar quando a carroça explodiu em chamas. Os cavalos feridos e desesperados conduziram o emaranhado de madeira em chamuscada e pessoas em movimento disparado. Tentamos acompanhar correndo atrás e logo vimos uma guinada e o giro que a carruagem deu no ar, destroçando no chão. Nill chegou rapidamente em socorro aos companheiros quando um assalto de carniçais surgiu da mata próxima. Havia muito barulho de chuva, gritos, ganidos e armas desembainhadas . Eram os sons que permeavam aquele local. O combate era ferrenho, mas éramos numericamente e belicamente superiores. Pensei que seria uma vitória rápida quando algo me atingiu pelo alto e puxou-me. As garras da criatura perfuraram meus ombros e o frio do seu toque era tão intenso que pensei que fossem estacas de gelo me rasgando. Senti a força esviar de meu corpo enquanto ouvia a voz de Cortaguela perguntar: -Onde você ia irmãozinho ? Debati furiosamente em vão, e senti os dentes da criatura grudar próximo a minha face. Era meu fim. Não tinha mais forças para lutar e Cortaguela acabaria com minha vida facilmente. A chance de escapar surgiu quando o vampiro foi alvejado por dardos de força púrpura e rajadas de fogo. Os homens vieram em meu auxílio. Usei toda destreza que meu corpo proporcionou e contorci para fugir das garras malditas. Ao atingir o chão corri em busca de proteção. Cortaguela não iria desistir de me matar. Não havia para onde correr. Nill, Jack e Rafael disparavam seus feitiços e balas para todos os lados. Erick e Thandor combatiam o troll que eu matei na praia quando cheguei em Drassen. Os dois estavam cobertos por uma crosta de gelo, e várias farpas gélidas eram percebidas onde as armaduras do homem e do anão não protegiam. Não havia opção, saquei o sabre e passei a duelar com Cortaguela. Livrando dos inúmeros carniçais, os magos passaram a castigar meu inimigo com seus feitiços elaborados. Os demais, logo vieram em meu auxílio. A armadura que consegui nos espólios do navio mercante Sereia-do-Mar continha os golpes que eu não conseguia desviar. Ferrão trabalhava arduamente, perfurando constantemente Cortaguela. Com mais rajadas ardentes do Rafael e Jack, tiros oriundos do anão e do bucaneiro, e alguns golpes da espada prateada de Erick o inimigo foi vencido. Seu corpo rapidamente era desfeito em uma neblina. Estava vencido, mas não aniquilado. Era nossa chance de completar o objetivo.


***


O barco de Calina estava ancorado próximo a praia. As areias estavam tomadas por aqueles mortos-vivos pútridos e perversos. Pedi para os demais companheiros esperarem enquanto avançava para visualizar melhor o local. Nill guardava minha retarguada enquanto eu escalava uma formação rochosa. Alguns carniçais andavam a esmo, outros aparentemente desempenhavam suas a mesmas funções que faziam quando eram vivos. Nill subiu no conjunto de rocha e armou seu rifle. Calculei o trajeto, que utilizaria escombros dos navios espalhados na praia, algumas caixas de madeira que trouxera inicialmente os mantimentos à ilha e outra formação rochosa. Facilmente aproximei das caixas desapercebido. Decorei a movimentação do carniçal mais próximo, que a repetiu três vezes como se tivesse procurando alguma coisa e utilizei seu ponto cego no campo de visão para me esgueirar próximo a formação rochosa. No ponto em que estava, percebi que ela era muito íngreme e seu topo formava uma protuberância que me escondia parcialmente do inimigo que guardava aquela posição. E certamente foi necessário esconder-me do observador, que aparentemente não percebera minha aproximação. De onde eu estava, enxergava Nill que ainda guardava minhas costas. Um frio percorreu a espinha quando percebi que um dos monstros patrulhava próximo onde o bucaneiro estava.


***


Quis avisá-lo mas estaria em apuros se o fizesse. Discretamente tentei avisá-lo do perigo iminente mas não deu certo. Um barulho alto como um trovão cortou o ar. O rifle disparara.


***


Vários monstros correram para a selva. Iriam emboscar Nill ou os demais companheiros e não havia como avisá-los. Eles sabiam dos riscos e eu esperava que eles resistissem. Afinal, facilitaria m minha fuga daquele inferno. Prossegui com o plano original e avancei até uma embarcação menor dos trolls. Escalei sua estrutura de madeira de cedro rapidamente e me deparei com a embarcação semi-submersa. O mastro era muito liso, o que dificultou a escalada até a torre de observação. Utilizei das velas e suas cordas para alcançá-la. Esquilibrei no suporte horizontal da segunda vela e cautelosamente caminhei até sua ponta. Na ponta eu saltaria para a vela do barco onde estavam os instrumentos de medição que eu procurava. Era o barco de Calina. Saltei com graça e aterrizei preciso. Agora faltava pouco. Desci para o convés e procurei a entrada para o interior do navio. Haviam dois carniçais na praia vigiando essa embarcação e não queria atrair sua atenção. Furtivamente penetrei no interior do barco.


***

Minha memória me guiava naquele compartimento. Fui diretamente no recinto que me interessava. Estava trancado. Desafroxei meu cinto de ferramentas e procurei por meu par de gázuas preferidos. A maior delas não falhou com meu instinto e desarmei o mecanismo rapidamente. Rápido e limpo. Entrei na sala de madeira e deparei com todos objetos e instrumentos de medição espalhados por todos os lados. Ao fundo, um corpo inerte extremamente ferido. Era Cortaguela. Aproximei do desgraçado com ódio transbordando meus pensamentos. Quando estava bem próximo suas pálpebras moveram revelando um olhar impassível. Lentamente trespassei uma lança de madeira em seu peito, caçando seu coração. Espamos percorreram seu corpo enquanto escalava suas vestes e posionava meus pés em seus ombros. Com uma faca afiada, comecei a degolá-lo sem misericórdia. Brutalizado o corpo do maldito pirata, passei a procurar as leituras que os instrumentos haviam feito e encontrei vários papiros que possivelmente eram o Erthay queria, quando ouvi passos no corredor anterior a porta desse recinto. A única saída era uma portinhola que servia de janela. Saltei sobre a mesa buscando a cabeça do Cortaguela e alcancei a entrada de ar. Me espremi para passar mas o totem de minha vitória sobre o vampiro atrapalhou a investida. Já do outro lado, utilizando as frestas entre as tábuas de madeira do casco para me segurar presenti que o barulho que a cabeça fez ao atravessar a escotilha não passou desapercebido por quem entrou na sala. Repentinamente o casco onde me apoiava explodiu em chamas. O impacto me lançou ao mar revoltoso. Um fato trágico porém cômico era quem nem todos piratas sabiam nadar bem e eu era um deles. Com muito esforço e sorte consegui chegar na praia. Avistei meu grupo engajados em combate à quatrocentas ou quinhetas braças. Corri nessa direção, gritando para retroceder. Uma de minhas qualidades era discernir a hora propícia de bater em retirada e a nossa hora já havia passado há muito tempo. A pessoa que explodira o casco do barco era Calina, que agora me perseguia em vôo ofensivo. Apesar da chuva intensa meus companheiros me avistaram e vieram em socorro, disparando diversas balas e magias ofensivas em direção a bruxa. Os conjuradores logo avisaram que estavam quase sem poder ofensivo, e Nill já se encontrava sem munição quando este foi atingido por uma maldição que fez seus olhos sangrarem. Ele estava cego. Erick auxiliava Nill, enquanto os demais eliminavam os carniçais remanescentes. Com muita dificuldade conseguimos fugir daquele embate mortal.


***


Alcançando o perímetro da cidade fomos auxiliados por soldados que levaram o grupo ferido até Guimarães. Erick reportou o ocorrido rapidamente ao general da Aliança que a praia estava tomada pelos mortos-vivos. Quanto a missão, resumi minhas palavras ao ato de lançar a cabeça de Cortaguela na mesa juntamente com os papiros que o maquinário do barco de Calina produziu.
Saí enfurecido da sala rogando maldições contra minha má-sorte. Pela terceira vez naquele dia, praguejei ofensas contra a ilha maldita.


***


Alguns sinos tocavam enquanto observava a chuva pela fresta da janela semi-aberta da taverna. Pude observar uma agitação das pessoas quando o BFG disparou em direção à praia. Larguei o caneco de rum que eu começara a bebericar e saí na chuva. O estronho de mil trovões atingiu meu ouvido e senti o chão trepidar. O impacto daquele disparado fez a ilha inteira tremer. Seu poder de destruição era algo inimaginável, infinito. Cuspi no chão molhado, com um sorriso vingativo no rosto. Os desgraçados receberam o que mereciam. Voltei para a taverna. Sequei um pouco o corpo e despi meus artefatos bélicos. Consegui sobreviver em meio aquela tormenta e meus esforços provavelmente seriam percebidos como imprescindíveis para o sucesso da missão na praia por Guimarães. Se assim o fosse, meu objetivo seria atingido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário